Governo federal celebra recorde histórico no mercado de trabalho, enquanto pesquisadores apontam aumento da subutilização da força de trabalho e pressão sobre a inflação.
O Brasil iniciou 2026 com indicadores considerados históricos no mercado de trabalho, segundo anúncio do Ministério do Trabalho e Emprego. A taxa de desemprego recuou para 5,2%, a menor já registrada desde 2012, refletindo crescimento em todos os estados e setores da economia. Desde janeiro de 2023, o país criou mais de 5 milhões de empregos formais, de acordo com dados do Novo Caged, elevando o estoque de vínculos formais para mais de 49 milhões de trabalhadores, o maior patamar da série histórica.
O que o governo diz sobre o resultado
O ministro Luiz Marinho classificou o momento como uma retomada sustentada do mercado de trabalho brasileiro, associada a um crescimento distribuído por todas as regiões do país, sem concentração em poucos setores. Segundo ele, esse padrão amplia a resiliência da economia diante de choques externos e sustenta um cenário de continuidade na geração de empregos formais para 2026, com fortalecimento do mercado interno e retomada gradual dos investimentos produtivos.
O outro lado da moeda: subutilização em alta
Nem todos os indicadores, porém, seguem na mesma direção. Um levantamento do Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getulio Vargas mostra que a taxa de subutilização da força de trabalho subiu de 13,5% em novembro de 2025 para 14,1% em fevereiro de 2026, o equivalente a cerca de 16,1 milhões de brasileiros, 675 mil a mais no período. Esse indicador é mais amplo do que o desemprego tradicional, pois inclui também quem trabalha menos horas do que gostaria e quem está disponível para trabalhar mas não está procurando emprego no momento da pesquisa.
O mesmo estudo relaciona parte desse comportamento à expansão do Bolsa Família, cujo valor médio mais que triplicou desde a pandemia. Para cada duas famílias que recebem o benefício, uma sai da força de trabalho, segundo o levantamento, o que ajuda a explicar por que a baixa taxa de desemprego não conta toda a história do mercado de trabalho brasileiro.
Por que o desemprego baixo também pressiona a inflação
Esse aperto no mercado de trabalho tem outro efeito colateral. Como o setor de serviços é intensivo em mão de obra e a economia opera perto da capacidade máxima, o aumento de custos com salários é repassado rapidamente ao consumidor, o que ajuda a manter o IPCA acima da meta de 3% ao ano. Pesquisadores do Ibre-FGV projetam que o mercado de trabalho deve seguir pressionado ao longo de 2026, com a taxa média de desemprego fechando o ano em 5,9%, praticamente estável em relação a 2025.
O que isso significa no bolso do trabalhador
Para quem está fora do mercado formal ou buscando uma recolocação, o cenário sinaliza que as vagas seguem em expansão, mas o poder de compra do salário pode continuar sendo corroído pela inflação persistente. É esse equilíbrio entre mais empregos e preços mais altos que deve seguir no centro do debate econômico nos próximos meses, à medida que novos dados do Caged e do IBGE forem divulgados.