No entendimento de Taiza Tosatt Eleoterio, profissional com atuação em apoio a mulheres e famílias em situação de vulnerabilidade, deixar a casa depois de um relacionamento abusivo não envolve apenas uma mudança de endereço, mas também um luto pelo lar, pelos objetos e pelas rotinas que ficaram para trás. Mesmo quando a casa estava associada a momentos de sofrimento, ela também guardava lembranças e uma vida construída.
Esse luto costuma ser silencioso, porque a pessoa sente que não deveria sentir saudade de nada. Reconhecer que perdas materiais e afetivas podem coexistir com o alívio de estar em segurança ajuda a acolher esses sentimentos sem culpa e a reconstruir, aos poucos, um novo espaço de pertencimento.
O que se perde quando se deixa a casa?
A casa é muito mais do que um conjunto de cômodos. Ela abriga a rotina de cada dia, os móveis escolhidos com cuidado, as fotografias, as plantas, o caminho conhecido até o trabalho e a relação com os vizinhos. Quando uma mulher precisa sair às pressas, ou com poucas coisas, é comum que parte dessa história fique para trás, e a sensação de perda pode ser grande.
Taiza Tosatt Eleoterio descreve que o que se perde nesse momento não são apenas objetos, mas também a sensação de continuidade. A pessoa deixa de ter acesso a hábitos simples, como preparar o café no mesmo canto da cozinha, dormir na própria cama ou receber visitas em um espaço que reconhecia como seu. Essas pequenas rotinas sustentam o sentimento de identidade, e sua ausência pode causar desorientação.
Em muitos casos, também ficam para trás itens com valor afetivo, como presentes de familiares, objetos de infância dos filhos ou documentos importantes. Perder essas referências pode intensificar a tristeza, pois cada item representa um fragmento da própria trajetória. Por isso, esse sofrimento merece ser reconhecido como parte legítima do processo de saída de um relacionamento abusivo.
Por que o luto pelo lar costuma ser silencioso?
Quem deixa uma situação de abuso costuma ouvir que deveria estar aliviada. Embora o alívio exista, a ideia de que ele deveria ocupar todo o espaço emocional faz com que a mulher se sinta culpada ao perceber saudade. Ela passa a pensar que não tem o direito de sentir falta de um lugar em que também sofreu, e por isso guarda esse sentimento para si.
Taiza Tosatt Eleoterio nota que esse silêncio é reforçado pelo julgamento de quem está de fora. Comentários como “mas você não era feliz lá” ou “agora você está melhor, é só esquecer” tendem a desqualificar a dor e a transformar a saudade em motivo de vergonha. Dessa maneira, a mulher evita falar do assunto e se isola, o que dificulta a elaboração da perda.
Além disso, o luto pelo lar costuma vir acompanhado de preocupações práticas, como encontrar um novo lugar para morar, organizar as finanças e cuidar dos filhos. Com tantas urgências, sobra pouco espaço para reconhecer a tristeza, que permanece em segundo plano até que, de repente, aparece em um momento inesperado, como ao sentir um cheiro familiar ou ao ver um objeto parecido com os que ficaram.
Alívio e saudade podem coexistir
Sentir alívio por estar segura e, ao mesmo tempo, saudade da casa e das rotinas não é contraditório. São sentimentos distintos que respondem a aspectos diferentes da mesma experiência: o alívio diz respeito à proteção, e a saudade, às memórias, aos vínculos e à vida que foi construída ali. Um não invalida o outro.
Taiza Tosatt Eleoterio explica que aceitar essa coexistência é um passo importante para o recomeço após abuso. Quando a pessoa tenta eliminar a saudade por considerá-la inadequada, acaba reprimindo parte de si e adiando a elaboração da perda. Já ao reconhecer que pode sentir as duas coisas, ela ganha liberdade para cuidar de cada sentimento, sem precisar escolher entre eles.
Vale lembrar que a saudade não significa desejo de voltar. Ela pode existir mesmo quando a decisão de sair é firme e acertada, pois diz respeito ao que foi vivido, não ao que se quer retomar. Compreender essa diferença ajuda a mulher a se tratar com mais gentileza e a reforçar a confiança na própria escolha.
Pequenos rituais para construir um novo lar
Construir um novo lar leva tempo, e esse processo pode começar com gestos simples. Escolher um objeto significativo para ocupar um lugar de destaque, como uma planta, uma manta ou uma fotografia, ajuda a criar referências de pertencimento. Mesmo em um espaço provisório ou compartilhado, pequenos detalhes podem transmitir a sensação de que aquele lugar também pertence a quem o ocupa.
Taiza Tosatt Eleoterio explica que os rituais cotidianos ajudam a reorganizar a rotina e a devolver previsibilidade ao dia. Preparar uma refeição de que se gosta, definir um horário para o café, escolher a música que acompanha as tarefas e reservar um momento tranquilo antes de dormir são práticas que criam estabilidade. Com o tempo, essas rotinas ajudam a transformar o novo espaço em um lugar familiar e acolhedor.
Também pode ser útil criar formas de se despedir do que ficou. Escrever uma carta, guardar uma lembrança ou conversar com alguém de confiança sobre o que mais faz falta são maneiras de honrar a história vivida sem permanecer presa a ela. A despedida não apaga o passado, mas permite que ele ocupe um lugar menos doloroso na memória.
Acolhimento social e rede de apoio nesse momento
Ninguém precisa atravessar esse período sozinho. O acolhimento social, oferecido por serviços preparados para receber mulheres e famílias, pode proporcionar abrigo, orientação e escuta qualificada. Esses espaços ajudam a reorganizar a vida prática e também reconhecem a importância dos sentimentos que acompanham a mudança.
Os serviços de assistência social também orientam sobre direitos, benefícios e possibilidades de moradia, o que alivia parte das preocupações imediatas e permite que a mulher dedique mais atenção ao próprio cuidado emocional. Já a rede de apoio comunitário, formada por familiares, amigas, vizinhos e grupos locais, oferece presença, ajuda prática e a certeza de que existem pessoas disponíveis para apoiar.
Receber esse apoio não significa fragilidade, e sim uma forma de cuidar de si e dos filhos em um momento delicado. Quando a pessoa se sente acolhida, torna-se mais fácil reconhecer o que sente, pedir ajuda quando necessário e dar os próximos passos no ritmo que for possível.
Um novo lugar para chamar de lar
O luto pelo lar deixado depois de um relacionamento abusivo é uma experiência legítima, que merece ser reconhecida e acolhida. Sentir saudade, tristeza e alívio ao mesmo tempo não representa fraqueza nem arrependimento, e sim a forma como cada pessoa elabora uma mudança profunda na própria vida.
Como pontua Taiza Tosatt Eleoterio, o lar também pode ser reconstruído, aos poucos, a partir de pequenos gestos, de vínculos de apoio e de um espaço em que a mulher se sinta segura para ser quem é. Com paciência, acolhimento e informação, cada passo contribui para que o novo endereço se transforme, com o tempo, em um lugar de pertencimento, tranquilidade e recomeço.
