De que forma o reconhecimento regional impacta a carreira de profissionais no Amazonas?

Santiago Belvano
5 Min de leitura
Alfredo Moreira Filho

A Zona Franca de Manaus é lembrada pelo parque industrial, mas o decreto-lei que a criou, em 1967, previa também um centro agropecuário. A parte industrial deslanchou rápido. A agrícola demorou, e a capital passou a crescer em ritmo que o campo à sua volta não acompanhava. Alimento chegava de barco e de avião, com preço proporcional à distância.

Alfredo Moreira Filho, fundador do Grupo Valore+, chegou ao estado em 1972, recém-formado pela Universidade Federal de Viçosa, e passou a década seguinte dentro dessa engrenagem: extensão rural, abastecimento e fomento agropecuário. O reconhecimento do Amazonas veio depois desse percurso, na forma do título de engenheiro agrônomo do ano, concedido pelo conselho regional da categoria.

Uma capital que crescia mais depressa do que a produção local

O problema do abastecimento em Manaus nunca foi só de preço. Era de logística e de calendário. Sem ligação rodoviária confiável com o restante do país, a cidade dependia de carga fluvial lenta e de frete aéreo caro, o que encarecia hortaliça, ovo e carne muito acima da média nacional.

A resposta institucional veio em blocos. Na metade dos anos 1970, a Suframa criou o Distrito Agropecuário, com quase 590 mil hectares e uma malha de estradas vicinais ao norte de Manaus, com a meta declarada de substituir importações e baixar o custo dos alimentos. Havia terra e havia decreto. Faltava saber o que plantar ali.

O que a assistência técnica precisava resolver antes de recomendar?

Uma dose de adubo calculada para o cerrado, aplicada em latossolo amazônico depois de uma chuva de duas horas, simplesmente escorre. O extensionista que repetisse a recomendação impressa perdia a confiança do produtor na primeira conversa seguinte. E confiança, naquele contexto, era o único instrumento de trabalho realmente disponível.

Na prática, Alfredo Moreira circulou por órgãos que faziam esse ajuste no varejo: crédito e assistência rural, centrais de abastecimento, fomento agropecuário. O trabalho consistia em testar variedade, corrigir espaçamento, ajustar o calendário de plantio ao regime de cheia e vazante dos rios e registrar o que funcionava em cada município.

Por que a validação técnica veio do próprio estado?

Existe a impressão de que título regional pesa menos do que reconhecimento nacional, como se fosse uma cortesia entre conhecidos. No caso amazonense, o efeito é o contrário. O conhecimento em disputa era local, pouco publicado e impossível de conferir de longe, e só quem trabalhava naquelas condições tinha repertório para avaliá-lo.

Ainda assim, o profissional submetido a esse julgamento enfrentava um público exigente: colegas que conheciam as mesmas glebas, os mesmos igarapés e os mesmos fracassos de safra. Uma lavoura bem-sucedida podia ser visitada, medida e questionada por quem entendia do assunto. Não havia como sustentar resultado inflado.

O que um reconhecimento regional protege?

Estados distantes dos centros de pesquisa perdem gente qualificada com facilidade. Distinguir publicamente um profissional cumpre uma função prática nesse cenário: sinaliza aos mais jovens que existe carreira possível ali, sem transferência para o Sudeste, e fixa na memória da categoria o que já foi testado e deu certo.

Décadas depois, Alfredo Moreira Filho reuniu parte dessas experiências em livro, incluindo episódios do período amazônico. Registros assim têm valor documental, além do pessoal, porque descrevem decisões técnicas tomadas em um momento em que a agricultura do estado ainda se organizava e quase nada disso ia parar em relatório.

Reconhecimento que fica com o território

Prêmio profissional costuma ser lido como assunto de currículo individual. A leitura mais interessante é outra: cada título concedido por um conselho regional é também um recorte da economia daquele estado, porque mostra qual problema estava sendo enfrentado e qual solução foi considerada digna de nota.

No Amazonas, esse recorte fala de abastecimento, de solo difícil e de distância. Quem olha hoje para a agricultura amazonense encontra questões parecidas, com outra escala e outras ferramentas. Reconhecer quem trabalhou nelas antes não é nostalgia, é manter à mão o registro de tentativas que já foram feitas.

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