Paulo Roberto Gomes Fernandes avalia que o debate sobre privatizações e estilos de licitação na Petrobras ganhou grande intensidade no final de 2018, em meio à transição de governo e às expectativas de mudanças profundas na condução da política energética brasileira. Naquele momento, o mercado observava com atenção os sinais emitidos pelo novo governo federal, especialmente diante da projeção de investimentos bilionários em infraestrutura e da promessa de maior participação do capital privado. Sob a ótica de 2026, esse período revela-se decisivo para compreender escolhas que impactaram diretamente a estrutura do setor de óleo e gás nos anos seguintes.
Em 2018, o ambiente era marcado por forte expectativa de reformas, revisão de ativos e redefinição do papel das estatais. Ao mesmo tempo, havia preocupação quanto à velocidade e ao critério das privatizações, sobretudo em áreas consideradas estratégicas. O debate não se restringia ao volume de investimentos, mas à forma como esses processos seriam conduzidos e aos efeitos de longo prazo sobre a soberania energética e a competitividade do país.
Privatizações e a gestão de ativos estratégicos
Paulo Roberto Gomes Fernandes aponta que a discussão sobre privatização no setor de óleo e gás exige uma distinção clara entre ativos estratégicos e atividades acessórias. Em 2018, a venda de participações relevantes e de infraestruturas críticas gerou inquietação no mercado, principalmente quando envolvia malhas de gasodutos e sistemas essenciais ao escoamento da produção. A avaliação desses ativos, por sua complexidade técnica e econômica, sempre carregou elevado grau de incerteza.
A experiência daquele período mostrou que decisões aceleradas podem gerar consequências duradouras. A alienação de ativos estratégicos, sem critérios técnicos rigorosos, tende a criar dependências futuras e custos operacionais adicionais. Em retrospecto, parte das preocupações manifestadas à época se confirmou nos anos seguintes, quando a necessidade de utilizar infraestruturas vendidas passou a impor novos encargos à própria estatal e ao sistema energético como um todo.
Modelos de licitação e impactos na engenharia nacional
Conforme destaca Paulo Roberto Gomes Fernandes, outro ponto sensível discutido em 2018 foi o modelo de licitação adotado para obras e projetos da Petrobras. A ampliação indiscriminada da concorrência, sem filtros técnicos adequados, passou a ser vista como fator de risco tanto para a estatal quanto para as empresas contratadas. Processos licitatórios baseados em projetos pouco detalhados tendem a gerar incertezas, aditivos contratuais e disputas posteriores.

A experiência acumulada demonstrou que engenharia de alta complexidade não se compatibiliza com modelos genéricos de contratação. A ausência de projetos executivos completos compromete prazos, custos e qualidade, além de expor gestores e empresas a riscos jurídicos desnecessários. Em 2026, esse aprendizado reforça a importância de licitações mais maduras, baseadas em planejamento técnico consistente e critérios objetivos de qualificação.
Tecnologia, capacidade instalada e poder de negociação
Segundo Paulo Roberto Gomes Fernandes, a preservação da capacidade tecnológica instalada no país sempre foi um elemento central do debate. Em 2018, já se destacava que deter tecnologia, infraestrutura e conhecimento técnico confere poder de negociação ao Brasil no cenário internacional. Exemplos anteriores mostraram que a capacidade de responder rapidamente a desafios energéticos fortalece a posição do país diante de fornecedores e parceiros externos.
A manutenção desse potencial exige políticas que valorizem engenharia nacional, inovação e domínio de processos críticos. Quando esses elementos são enfraquecidos, o país tende a se tornar mais dependente de soluções externas, reduzindo sua margem de manobra estratégica. Ao longo dos anos seguintes, essa reflexão ganhou ainda mais relevância diante de um mercado global marcado por disputas energéticas e instabilidade geopolítica.
Lições de 2018 para o cenário observado em 2026
Na percepção de Paulo Roberto Gomes Fernandes, o debate travado em 2018 sobre privatizações e modelos de licitação deixou lições importantes para o setor de óleo e gás. A necessidade de atrair capital privado mostrou-se legítima, mas condicionada à preservação de ativos estratégicos e à adoção de práticas contratuais tecnicamente sólidas. O equilíbrio entre investimento, governança e planejamento revelou-se determinante para a sustentabilidade do setor.
Olhando a partir de 2026, fica evidente que decisões tomadas naquele período moldaram a dinâmica atual da indústria. A experiência reforça que reformas estruturais devem ser conduzidas com visão de longo prazo, respeito à engenharia e compreensão do papel estratégico da energia para o desenvolvimento econômico. Mais do que acelerar processos, o desafio permanente é garantir que escolhas presentes não comprometam a capacidade futura do país de planejar, produzir e decidir sobre seus próprios recursos.
Autor: Pall Shnider